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Portugal Litoral

Dizem que Portugal é lindo, então decidi certificar isso eu mesmo. Não que eu precisasse ver para crer, mas precisava ver para sentir.

Portugal Litoral

Dizem que Portugal é lindo, então decidi certificar isso eu mesmo. Não que eu precisasse ver para crer, mas precisava ver para sentir.

P17 | Praia da Torre (Oeiras) - Azóia (Sintra)

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Azóia é uma pequena povoação próxima ao Cabo da Roca. O Cabo da Roca era tudo que eu e o Rômulo Martins queríamos avistar quando chegávamos ao topo de cada uma das colinas entrecortadas que os 10 quilómetros finais do percurso reservou-nos. Avistando as colinas de longe, da Praia do Guincho, contamos umas cinco, mas depois de não sei quantas subirmos e descermos, parecia-nos que não acabariam nunca. O que não posso dizer do nosso suprimento de água, este sim acabou e nos deixou de rastos.

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Praia do Guincho - A contar as colinas ao longe

Se o Cabo da Roca estivesse à 29 km do ponto de partida como eu calculara, a água teria sido suficiente. O problema é que os cálculos foram feitos à revelia de precisão, mesmo nas coxas, como dizem, ou se não, o Cabo da Roca estava a fugir de nós. Sinceramente eu acredito muito mais na segunda hipótese, mas o Rômulo prefere acreditar na primeira, que eu calculei mal. A verdade é que ainda estávamos na altura da Praia da Grota, bem longe ainda do Cabo da Roca, quando a app no telemóvel, a que estava a marcar o trajeto e outros dados, disse com a sua vozinha irritante e em tom macabro:

“Distância percorrida 30km, e de água só lhes resta um gole hahaha”.

A partir daí achamos melhor tirar o som da App.

Praia da Grota

Praia da Grota

 

Ainda fomos além da Praia do Porto do Touro uns 2km aproximadamente, até o km 34. Neste ponto, no topo de uma colina que alcançamos com alguma dificuldade e sem água, olhamos em frente e avistamos, ainda distante, a pontinha do farol do Cabo da Roca. Seria uma pontinha de esperança e incentivo não fosse olharmos para baixo, para o caminho que teríamos que percorrer, para as descidas e subidas que ainda nos aguardavam, e concluirmos que seria uma parte do trejeto ainda mais complicada do que a que já havíamos percorrido até ali, principalmente pelo fato de estarmos quase a chorar por água. Mas, apesar da vontade de chorar, era melhor não gastarmos as lágrimas fossem elas as últimas gotas de líquido no nosso corpo. Não choramos.

Por falar em esperança, foi o que não deu-nos o casal que encontramos no trilho mesmo em frente a Praia do Porto do Touro no km 32,5. Ávidos por uma resposta reconfortante, perguntamo-lhes:

“Olá, boa tarde! Por acaso estão a vir do Cabo da Roca?”

E eles, esbanjando um belo sorriso no rosto cada, reflexo da simpatia intrínseca, responderam:

"Não, estamos a vir de outro lugar. O Cabo da Roca ainda está muito longe, bem além do ponto de onde partimos."

A nossa decepção com a resposta foi instantânea. Naquele momento detestamos o casal simpático e cruel, pois eles bem que podiam ter mentido ou omitido a parte em que disseram que o Cabo da Roca ainda estava muito longe, mas não o fizeram, preferiram ver o nosso rosto estampar como um painel publicitário o desgosto de ouvir aquela resposta cruciante. Mas, apesar dos pesares, continuamos a descer, subir e sucumbir de sede e fraqueza nos outeiros do litoral Sintrense…

Se naquele dia ao Cabo da Roca não chegaríamos, a solução era encontrar uma saída até a estrada mais próxima e, com sorte, um lugar para comprar água e uma paragem do autocarro.

Estávamos rastejando a caminho da estrada, no quilómetro final, quando por ironia do destino reencontramos o casal simpático. Se não nos deram esperança no primeiro encontro, neste segundo improvável encontro deram-nos algo muito mais valioso, cotado para nós a preço de ouro naquele momento, além, evidentemente, do habitual simpático sorriso, ainda mais alargado pela surpresa de nos rever; deram-nos o resto de água que tinham com eles. Nunca afeiçoei-me tanto a um casal de desconhecidos por que alguma vez passei em minhas caminhadas como àquele jovem casal. Foi uma das águas mais saborosas que bebemos em toda a nossa existência. Era o resto, era pouco, mas foi suficiente para trazer-nos de volta à vida.

Completamos o quilómetro final, conseguimos chegar ao vilarejo de Azóia, enchemos as garrafas de água e encontramos a paragem do autocarro. Voltamos para casa.

Ao olhar o Rômulo Martins no autocarro de volta para casa, era evidente que estava fisicamente cansado, mas parecia-me espiritualmente tonificado, de alma revigorada. Era como eu estava a sentir-me e sempre fico ao final de cada caminhada que faço, cansado mas revivificado. Penso que não tem como ser diferente. Cada percurso é sempre uma experiência singular e indescritível. Fiquei feliz de ter compartilhado mais esse percurso com meu amigo.

Foi o meu primeiro percurso a ir em direção ao norte, partindo da foz do rio Tejo, mais precisamente da Praia da Torre. O primeiro trecho do percurso, escondido atrás da cidade, revelou-se muito mais belo quando olhado com atenção, sem levar em conta os estragos feitos pelo homem. O segundo trecho, com pouca ou nenhuma interferência humana, dispensa palavras. 

Galerias de fotos:

Não terminei o litoral sul ainda, na altura certa o farei. Falta-me caminhar de Albufeira até a foz do rio Guadiana. Por enquanto vou seguindo para o norte nesse desnorte que a tantas ando.

 

Percurso 17 | Praia da Torre (Oeiras) - Azóia (Sintra)

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